Como adotei minha bebê sem entrar na fila da adoção
Sim, eu adotei uma bebê sem entrar na fila da adoção. E em menos de 24 horas!
Mas, antes que você pense que eu dei uma de Nazaré Tedesco e roubei uma criança do hospital, deixa eu contar essa história direito.
Durante um ano, meu marido e eu passamos pelo processo de habilitação para adoção: entrega de documentos, entrevistas com assistente social e psicóloga, visita domiciliar, entrevistas individuais e em grupo, conversas com os futuros irmãos da criança, curso presencial e todos aqueles trâmites que você já deve conhecer.
Enfim, o juiz assinou o processo. Foi como se dissesse:
— Beleza, vocês já podem entrar na fila. Falta apenas o pessoal da Vara colocar o nome de vocês no Cadastro Nacional de Adoção. Depois, é claro, esperar.
Sim, eu sabia que o próximo passo seria esperar e, provavelmente, por muitos e muitos anos. Afinal, eu queria um bebê. E isso era inegociável.
Contudo, menos de 24 horas após a assinatura do magistrado, vi o rostinho da minha filha pela primeira vez. Agora, vou contar algumas coisas que acredito terem contribuído muito para que isso acontecesse.
Como mãe adotiva e estudiosa da área, eu sabia que bebês vindos de casas-lares geralmente apresentam atrasos no desenvolvimento e outras condições específicas. Os motivos são os mais variados: desnutrição, abandono, falta de estímulos, negligência e por aí vai. Sabendo disso, não faria sentido dizer que eu só aceitaria uma criança saudável.
Nenhum sentido mesmo.
Outra coisa que aprendi com minhas experiências de adoção de grupos de irmãos, adoção tardia e adoção casada é que filho a gente não escolhe, a gente acolhe. E o amor que sentimos supera muitos dos nossos medos e preconceitos. Ou seja, do jeito que o bebê viesse, eu o amaria. Não havia outra opção.
Mas, ao preenchermos o documento sobre as características das crianças que estávamos abertos a receber, percebemos que as opções pareciam seguir uma lógica de tudo ou nada: ou queríamos um bebê saudável, ou aceitávamos qualquer condição. Nenhum dos extremos correspondia à verdade.
Então, meu marido e eu listamos as características do bebê que aceitaríamos, além das previstas na ficha da Vara. Construímos essa lista sem romantizar o processo nem tentar acelerar a fila. Apenas ampliamos o perfil, sem ultrapassar nossos limites.
Também informamos que estávamos dispostos a buscar nossa criança em qualquer lugar do Brasil. O dinheiro para as despesas a gente veria depois.
A lista nos deu clareza. Em um dos grupos de busca ativa dos quais eu participava, apareceu a descrição de Maria Vitória:
— Menina branca, com um ano e sete meses. Caminha, fala e apresenta provável síndrome alcoólica fetal.
Na hora, pensei:
— É minha! Se já anda e fala com menos de dois anos, então o atraso é leve. E atraso leve estava na lista.
Voamos para buscar Maria. Ela era séria, bochechuda e leonina. Quando voltamos para nossa cidade, realizamos os exames genéticos. E sim, ela tinha uma síndrome. Não aquela que nos disseram, mas outra.
Tínhamos plano de saúde e, por isso, conseguimos oferecer tudo de que ela precisava. Aos cinco anos, recebeu alta de todos os atendimentos clínicos.
Hoje, Maria tem nove anos. Da síndrome, carrega a necessidade de usar óculos por causa da miopia e alguns traços físicos que eu acho lindos. Não apresenta atraso significativo na escola nem possui qualquer deficiência. Faz amizade em qualquer lugar e sabe se impor.
Atualmente, sua maior dificuldade está relacionada ao TDAH. Iniciamos o tratamento há um mês e já é visível a redução dos sintomas do transtorno.
Ela também deixou de ser séria — na verdade, é uma palhaça! 😁 Continua bochechuda e vaidosa, como uma boa leonina.
E dizem que ela é a minha cara.

Que lindo. Lembro da Maria bebê. Pode continuar escrevendo que essa história tem muitos capítulos.
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